Dois Franciscos

Dois Franciscos

 

Todo rio evoca a metáfora da vida, talvez até de modo clichê, se pensarmos que ele também “nasce, cresce, multiplica-se e morre”. É energia corrente que também transforma-se em outras energias, serve de veículo (meio), tanto para atividades práticas e econômicas como locomoção, fornecimento de matéria líquida ou força bruta (para produção de energia motora e elétrica), quanto para atividades sutis, especialmente quando transformado em símbolo, este, carregado de inúmeros significados.

 

Pensar e refletir sobre o Rio São Francisco trouxe estímulos pontuais: como um dos mais importantes cursos d’água do Brasil evoca imaginários locais, em Minas Gerais, sua nascente a 1200m de altitude, e Sergipe, sua foz, no Oceano Atlântico? Como nós (artistas da performance oriundos de diversas formações e pontos geográficos) trabalhamos em conjunto, permeando nossas pesquisas solo? Como estabelecer uma troca de conexão entre formação e apreciação a mais de 2800km de distância?

 

Estimular a formação e a reflexão sobre a prática da performance em sua foz, e apresentar o resultado do processo em sua nascente: esta é a base de DOIS FRANCISCOS, dividido em duas etapas, ou margens.

 

A primeira etapa do projeto, o workshop, a 1ª. margem, aconteceu entre os dias 5 e 7 de agosto de 2013, em Laranjeiras, cidade histórica que abriga o Curso de Teatro da Universidade Federal de Sergipe, e na capital, Aracaju.

 

O contato inédito e estrangeiro de Christina Fornaciari e Shima, que não conheciam a região, ao contrário de Maicyra Leão, nascida lá e de família mineira, convivendo entre os dois estados desde a infância, suscitou o estranhamento necessário para evocar dúvidas e memórias que foram compartilhadas com os participantes da oficina e foram mapeando afetivamente o que se confirgurou como a temporada sergipana do projeto.

 

Também a partir do tema do workshop, Fluxo e Raiz foram evocados como parâmetros-guia para se entender a dimensão, estatística e simbólica do Rio São Francisco, cujas margens sustentam um fluxo que atravessa em entrecorte pelos dois estados.

 

Assim, com apenas um dia de intervalo, nos dias 9 e 10 de agosto, foi realizada a 2ª. margem do projeto com as apresentações, no espaço Romano Stochiero 54, das performances frutos desse deslocamento, que, apesar do pouco tempo de maturação, exigiram uma criação pautada num imediatismo do latente.

 

Christina Fornaciari construiu, desde os encontros no workshop, um universo permeado de elementos comuns às duas culturas: ervas medicinais usadas de forma similar, crenças e tradições de cada lugar e suas semelhanças. No entanto, um fator inesperado acabou por se tornar o maior ponto de conexão entre Minas e Sergipe: a exploração predatória de recursos naturais. Que as montanhas de Minas são apenas fachada, carcomidas pela extração mineiradora, ela já sabia... Sua surpresa foi, logo nas primeiras horas em Aracaju, à beira da praia, ter que encarar as enormes plataformas de refinamento de petróleo, presença constante ao longo de toda a orla. Na performance batizada com o mesmo nome do projeto, Dois Franciscos, tais elementos foram dispostos através de um barco de metal (exploração mineiradora, em MG), e pneus e câmaras de ar (refinamento de petróleo, em SE). A presença de seu corpo, imóvel, soterrado entre o metal e a borracha, preenchia o espaço ao longo de todo o acontecimento do evento.

 

Maicyra Leão, movida por uma tradição nordestina também voltada às histórias do cangaço, apresentou Lampião e seu bando na Grota de Angicos, numa intenção de título figurativo a uma ação abstrata, utilizando-se de elementos históricos da época de acampamento do bando naquela grota, situada na margem sergipana do rio. Assim, a cegueira do olho direito de Lampião, a espreita dos olheiros escondendo-se da Volante, o bordado dos trajes e a morte do famoso cangaceiro no local compuseram os atos preliminares da performance, agregados sob a frase ouvida durante a 1ª. margem do projeto: o rio quando começa a ficar salgado quer dizer que está morrendo. Assim é a foz, no Baixo São Francisco, quando ele encontra o mar.

 

Shima, por sua vez, construiu uma imagem instalativa, apoderando-se da memória construída através de relatos, informações compartilhadas e encontradas durante esta semana, e da particularidade do local de exibição das performances - uma casa adaptada à visitação pública - e trabalhou a composição de objetos já existentes no local com itens adquiridos durante sua viagem, com uma mixagem sonora unindo a oração de São Francisco e músicas populares tocadas em rádios populares, de MG e SE. Seu corpo se colocava em meio a essa instalação como se tivesse sido ali despejado, afogado em meio às memórias materializadas do Velho Chico, inerte e extasiado. Náufrago, como que resgatado (devolvido? rejeitado?) deste turbilhão de informações, também o título de sua ação.

 

Para alinhavar a situação de apreciação, em Belo Horizonte, realizamos um bate-papo com os presentes esclarecendo o formato e os objetivos do projeto, e na ocasião recebemos uma solicitação: a troca, de uma próxima vez, precisa acontecer com oficina e apresentações em cada cidade. Sentimos a carência em sermos o objeto de fluxo e de raiz, aqui e acolá.

 

Por fim, estranhamente, nenhuma das cidades que de fato abrigaram o projeto são banhadas pelo Rio São Francisco. Também a nós, nos ocorria perguntar: como essas águas em que não nos banhamos irão nos inundar? Usamos o olhar cego da história do cangaço, atravessando a barco atolado de bóias essa margem da exploração e naufragamos onde foi possível. Curiosamente, já ao final do projeto, em visita a um museu que apresentava parte da história de Minas Gerais, nos deparamos com depoimentos de Guimarães Rosa, escritor do célebre Grande Sertão: Veredas, informando que o autor só estivera no sertão 2 vezes, em visitas turísticas e rápidas. Ou seja, como pudera escrever sobre um sertão que mal conheceu? A isso ele respondeu: “O sertão é dentro da gente”.

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