Sobre a natureza do tempo [Lia do Rio - 2013]

Deparar-me com determinados materiais e imagens, e vivenciar certos acontecimentos, deflagra em mim a vontade de usá-los plasticamente. Recolho e guardo um material que me fascina, ou registro em foto e vídeo uma situação que me chama a atenção. Ao executar a obra passo a perceber aquilo que me motivou a fazê-la, aquilo que antes aparecia sob a forma de impulso. É a viabilização de uma “necessidade interior” que resulta em um objeto gerador de reflexões. Este objeto não pode ser aperfeiçoado, mas nele poderá ser gerado um novo objeto que suscitará novas reflexões. 

 

Há algum tempo, comecei a me preocupar em organizar os registros dos meus trabalhos, e editar os vídeos documentação que eu havia filmado, ou mandado filmar, tanto durante a sua execução, como ao serem finalizados e expostos. Essa necessidade, que se faz presente no processo de todo artista, se deve, no meu caso, ao fato de se tratarem de trabalhos, em sua maioria, efêmeros, tais como aqueles que executei com materiais perecíveis, e aqueles feitos na natureza. 

 

O uso de materiais perecíveis tem a ver com um mundo sempre em mutação. Nada no mundo morre, tudo se transforma. É preciso registrar, parar o tempo, para que não se tornem esquecimento. A própria efemeridade já se faz presente no momento mesmo da desmontagem de um trabalho pela sua própria condição site specific. Na realidade, a duração do trabalho em si, não é uma preocupação minha. O trabalho permanece enquanto durar. É uma questão de mais tempo ou menos tempo. Trata-se de trabalhos que duram menos que o autor. Dessa maneira, posso acompanhar todo o processo, desde o surgimento até sua desintegração. Afinal o que é o tempo? Um conceito que sem o homem não existiria. Atemporalidade. 

 

Guardei esses materiais com a idéia de, mais tarde me aprofundar na totalidade desses registros: fotos, filmagens, esquemas, etc. Ao ocupar-me especificamente das filmagens, comecei a perceber recorrências no conjunto de informações que as imagens dos trabalhos me traziam. Isso eu nunca havia notado, por estar mais ligada, enquanto os executava, a formas já existentes no local onde os trabalhos eram apresentados. 

 

Descobri, então, que havia outra possibilidade de leitura, que as obras poderiam se articular, e remeter ao desenho. O feixe de relações estabelecidas se abria. As questões suscitadas pelas conexões feitas através das imagens capturadas foram aprofundadas e a reflexão sobre este processo, não em busca de uma resposta, mas na indagação do que este novo procedimento suscita, possibilita interrogar o que acontece quando nos é dado um novo campo de experiência. 

 

Com a oportunidade dada pelo Edital Trocas Contemporâneas de inserir um trabalho em vídeo, debrucei-me novamente, sobre esse material que se tornou um trabalho. Novos significados se agregaram quando percebi um conjunto de ressonâncias que me levaram a visualização de um fluxo, um fluxo na história do meu processo que, no entanto, não seria apresentado, necessariamente de uma forma cronológica. Daí as imagens se alternarem com resoluções diversas, o que possibilita a um espectador atento, poder situá-las cronologicamente, se assim o desejar. 

 

O que mais me chamou atenção, inicialmente, foi a linha. Passei a capturar fragmentos de todas as filmagens em que ela aparecia, a juntá-los a outros agrupamentos, e a somá-los em continuidade. Elementos re significados adquirem uma força inesperada, o que acontece quando a linha reta se alonga, se expande, amplia seu espaço em seta, em linha curva, em espiral, e assim por diante, sob a forma de um pensamento plástico. 

 

A partir daí, näo mais me interessava a minha história do meu processo. 

 

“Escutava” Klee dizendo: Uma linha é levar um ponto a passear. Lembrei-me do meu trabalho com a semente vermelha. Nesse momento se revelou algo que vinha me intrigando há tempos: o porquê da minha certeza a respeito dela, o porquê de ter que ser aquela semente dura e vermelha, e não poder ser nenhuma outra: tratava-se de um momento suspenso em um movimento. A semente contém, em potencial, todas as árvores que ela já foi e todas as árvores que virão. Assim como o ponto é para a linha. A sucessão de imagens do mesmo tipo de acontecimento é prolongada através dos vários momentos em que se desenvolve - pontos na linha do tempo. 

 

Da linha passei ao plano que já se configurava pela espiral e por outros trabalhos planares. Estes se tridimensionalizaram no cubo de folhas, ordem perfeita, ordem geométrica, ordem estabelecida pelo ser humano. Porém a última forma em que folhas caindo se configurariam. 

 

O cubo, por sua vez, arredondou-se, transformou-se em outra forma ideal, a esfera, corpo perfeito, de contorno liner circular, sem começo nem fim a partir de qualquer ângulo que se olhe. Um desenho em equilíbrio, uma tendência ao centro, grande esfera sobre um tapete circular vermelho, rouge brézil, assim chamavam os franceses ao pigmento vermelho. A esfera remeteu-se, no vídeo em looping, a semente, ponto primeiro, início de tudo, e do vídeo. 

 

A edição fez-se gradativamente, dia após dia, com o resgate das imagens adequadas á formatação da idéia, sempre com o acompanhamento de um técnico em edição, porém sob a minha direção, até que o resultado final ideal fosse alcançado. 

 

Foram acrescentados trechos de filmagens feitas na natureza e, também, filmagens feitas enquanto eu recolhia materiais em parques e jardins para a viabilização das obras, sendo aquelas inseridas todas as vezes que se fez plasticamente necessário a leitura do contexto. 

 

Escolhi para sonorizar o vídeo e complementar o trabalho, um trecho de uma das sinfonias de Beethoven, por sua dinâmica adequada ao fluxo seqüencial do desenho em transformação. Apesar da possibilidade desta imagem se transformar, cada momento existe como parte de um todo, e assim, o trabalho atual aponta para o próprio deslocamento, para este fluxo constante feito de momentos obra. 

 

Dessa maneira, o trabalho não conta a história do meu processo. De simples documentação, as imagens capturadas passaram à promoção de uma experiência, da experiência intransferível, experiência da obra. Ela é um convite à reflexão, pois as possibilidades de reagrupamento das imagens transformadas em memória são muitas. O trabalho só se completa com a interação do espectador, levando-o a aproximar-se do meu campo perceptivo. 

 

 

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