Trinus Capillus

Nos meses inteiros de junho e julho percorri as províncias espanholas e a  sub-região da antiga província do Algarve  no sul de Portugal. Os fatos e os  lugares são descritos de forma poética e mesclados entre si . As imagens foram produzidas  de acordo com os pensamentos e devaneios  vividos pelo artista no momento em que fazia as intervenções na tentativa de captar uma península ibérica sonhada e atemporal, em uma busca pelo mito fundador da civilização ocidental, a antiga Roma, Grécia, Fenícia, árabe ,judia,visigoda ,ainda presente  e pulsante em uma natureza crua e violenta compondo tesouros de sangue e de amor nos solos da Espanha.

 

O foco do trabalho foi a pesquisa de um léxico visual que pudesse ser  aprendido em fotografias ou vídeos  mesclados com minha trajetória pessoal representada pelo meu cabelo, emoldurados com referências (teóricas, históricas, visuais, etc). Tratei de ver como meu processo criativo opera em lugares novos para mim, mas de influência simbólica e antiga para humanidade; mitos, santos como San Sebastian, San Firmin, Virgem do Rocio,Virgem de Covadonga e tantos nomes que se mesclam  fielmente aos nossos  São Jorge,Ogun ,Tupã e Yemanja.

 

É imprescindível dizer que não procurei lugares turísticos e sim achados ,esculturas , bosques,ruínas e monumentos que apareciam espontaneamente e onde a natureza se relaciona com força com o épico humano  e a isto devo muito a ajuda de meus amigos espanhóis sem os quais não teria conseguido fazer esse trabalho.Eles estavam sempre tentando responder a minha pergunta:

 

- onde poderia encontrar esses lugares? 

 

Com ajuda deles pude falar com as pessoas,  entrar em lugares secretos e sagrados,conseguindo assim percorrer caminhos belíssimos e raros. Ajudaram me também meus amigos de outros países que, como eu, buscavam tesouros na península .Cito como por exemplo minha viagem a Pamplona;  o ônibus estava cheio de estrangeiros,  Anglo-saxões na maioria. Depois de algumas horas, pela janela do ônibus, eu podia ver as muralhas da cidade e a multidão de vermelho e branco  anunciava que estávamos  entrando na cidade sagrada de Pamplona, a  Iruña Basca,capital de Navarra.

 

Em  Iruña  passei todas as horas da noite,e como todos, bebendo em pé pelas ruas úmidas. Aos primeiros raios de sol vermelho vinho, Pamplona amanhece com cheiro de urina,álcool e sangue. Homens começam a colocar barras de  madeiras grossas fazendo de um caminho cercado, um curral .Começam a chegar jovens australianos e americanos como se acabassem de ler Hemingway,  como quem dormem seus sonhos e acordam em Espanha ,chegavam vibrantes e assustados para fugir de uma manada de touros e quem sabe, assim morrer de uma forma diferente.

 

É claro que estive em lugares inevitáveis poeticamente como os moinhos de Dom Quixote em  Castilla La Mancha , mais como o vídeo retrata, a beleza é sempre mas dura e fascinante, já que os moinhos não se moviam ao vento abundante que soprava, e que por muitas vezes levou meus cabelos tendo que ir busca-los por metros e metros de distancia .

 

Já em Andaluzia ,me lembro quando fui com meu amigo Vicente Gonzáles a Plaza de Toros en Cádiz e fomos muito bem recebidos pelo engenheiro e o encarregado da arena. Recordo seu orgulho e fascinação ao falar de sua tradição, somente interrompida por  sua curiosidade em saber o que eu fazia com meus cabelos, ao me ver com uma câmera e com aquelas madeixas negras nas mãos, ele perguntou se tinha algo que ver com os touros? Eu disse que sim. E isso bastou.

 

Assim como em Algarves a simplicidade das pessoas me fizeram lembrar o interior de Pernambuco, e a sensação em falar novamente minha língua materna ,mas com uma nuance perdida como se estivéssemos falando em eras  diferentes. Os contatos humanos foram as partes mais ricas do processo de trabalho. Nesse momento posso citar meu amigo inglês Richard Jones comentando sobre o livro que Hemingway escreveu sobre a guerra civil espanhola e que na verdade tem o titulo inspirado em John Done poeta inglês .

 

 

A morte de cada homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

 

— John Donne 1

 

O resultado final do projeto não pode ser dito de maneira estrita ou objetiva já que em uma experiência como essa o que se pode  relatar é uma sensação. A sensação de enriquecimento. Posso até dizer que sabia o que buscava  , mas o interesse e o principal foi como se deu a  forma do que se achou. É espantoso como  em um solo que recebeu tanta história e civilizações as histórias ainda se contam de forma conjunta com a natureza.

Devo agradecer  ‘’Trocas Contemporâneas ‘’ pela oportunidade e abertura com que desde o principio se relacionaram com o projeto Trinus Capillus fazendo o  mas que viável, real.

 

 

João Manoel Feliciano

 

Madri 29 de julho de 2013

 

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