Relato de Experiência

 

Cássia Correa

Róger Machado

Quarta-feira (02h50min).

 

Estamos no Aeroporto Internacional Salgado Filho de Porto Alegre, 26 de junho de 2013. Diante de uma viagem que começou às 11h30min de terça-feira em Pelotas – RS e terminará apenas às 14h30min de quarta feira em São Luís – MA. A temperatura aqui não passa dos 10ºc. Estamos sentados à espera do Check in.

 

E relembro: Na primeira semana do mês de abril do ano de 2013, dedicamos as noites para a finalização do projeto ZONAS, específico para o deslocamento proposto no edital - Trocas Contemporâneas – Interações Artísticas, da FASE 10 Produtora Artística LTDA / Rio de Janeiro, onde encontramos a oportunidade para experiência. Neste projeto articulamos poéticas visuais e audiovisuais (fotografia e vídeo) com o contato entre comunidades de situações de conflito, onde frisamos no processo ações de exploração e projeção audiovisual em uma região. O projeto encontra na situação de insegurança de São Luís do Maranhão, a potência para discorrer o conceito que nos embasamos - as heterotopias de Michel Foucault (1926-1984).

 

Enfim, calor de 31ºc. No trajeto Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado - Pousada Colonial no Centro Histórico reparo nos prédios antigos, nas ruas de pedra e nas esquinas estreitas. Estamos na região de conflito, cidade tombada como Patrimônio Histórico da Humanidade. É tempo de organizar o material audiovisual: computador, projetor, câmeras e suas baterias (14h45min). Ficamos na pousada, descansamos e repassamos o cronograma.

 

Na primeira ação do projeto ZONAS no Mercado Público de Rio Grande no ano de 2012 (ZONAS-Fora de curso) pensamos o Mercado a partir da questão do abandono, da “disjunção” com o centro da cidade. O conceito de heterotopias de Foucault “Espace des Autres” de 1984 publicado pela revista francesa Arquitetura / Movimento / Continuité, dialoga com a história e o tempo, diz que estes são indissociáveis e que não podemos ignorá-los. Abordamos neste projeto e nos que seguem até hoje justamente o que autor acusa como os possíveis estados do espaço: estados de passagem, de permanência, de lazer, de refúgio, de abrigo, de vigilância, de prisão e etc. Trabalhamos com duplos espaços. Entre estes projetos denominados ZONAS, existem duas diferenças. Esclareço: O projeto que se desenvolveu em Rio Grande – RS é um projeto - objeto, sem objetivos de experiência do artista com o espaço, apenas em busca da transmissão (projeção online). E o que se desenvolveu em São Luís – MA, é um projeto – processo, com objetivos de contato entre o artista e o espaço, e a projeção como marco final.

 

Quinta-feira (08h23min).

 

Estamos em uma das praças de Integração de São Luís à espera do ônibus com destino Calhau Litorânea. Aguardamos e observamos o entorno. Primeira surpresa: “Quantas crianças!” diz o Róger. E realmente não eram apenas cinco, ou dez crianças, toda menores de um ano de idade, eram diversas crianças de colo, no chão, no carrinho de bebê dependuradas nas perdas dos pais. Pesquisamos e descobrimos: Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010 calculam que a região do Nordeste do Brasil possui a segunda taxa mais alta de natalidade 2,69% e é primeira no gráfico de mortalidade infantil cerca de 30%. O estado do Maranhão com 36, % é o maior índice de mortalidade infantil do Nordeste.

 

Carregados de equipamentos sofremos com o calor intenso. O ônibus chega e seguimos com as observações. O transporte público também nos surpreende com seu baixo custo, R$ 2,10 (dois reais e dez centavos) e ainda temos o valor de R$0,80 (oitenta centavos) no domingo.  Mas este valor adquire um significado desagradável e perturbador ao longo da jornada. As instalações do ônibus, janelas e portas estão quebradas, entreabertas elas rangem muito e o ruído é ensurdecedor. São descidas e subidas arriscadas, curvas realizadas em alta velocidade.

 

Na ponte José Sarney que interliga o Centro Histórico à Nova São Luís, com certo tempo de viagem, reparo nas pessoas que nos acompanham. Todos calados, algumas pessoas cochicham sobre os últimos protestos. Há muitas mulheres (jovens e velhas). Penso que talvez haja trabalho para elas no outro lado da ponte. São mulheres de semblante abatido, a maioria exausta tanto pela viajem como pelo calor. Talvez sejam babás, domésticas, camareiras dos hotéis, secretárias, empregadas, cozinheiras e etc.

 

Chegamos à Nova São Luís. Deparamos-nos com grandes construções, edifícios espelhados,  hotéis luxuosos, um trânsito caótico e reparamos na falta de pessoas nas calçadas. Não há fluxo de pessoas. Somente veículos e o sol escaldante no asfalto.

 

Ao preparar o projeto, exploramos a cidade pelo Google Mapas (ferramenta de pesquisa online). Partimos com todos os mapas (Print Screen, impressos e digitais). A partir deste contato visualizamos a cidade.  Preparamos as câmeras e as baterias. Estamos presentes no contexto da zona de segurança. Miramos as construções, as torres e o trânsito, acompanhamos o seu fluxo. E diante de um número considerável de carros na Avenida dos Holandeses, damos início às ações de captura de imagens visuais e audiovisuais. Estamos independentes da margem de segurança, atuamos livremente, câmera dependurada no pescoço. A experiência de trabalhar com a poética no local, vivenciar o que era apenas imagens de computador é vasta. Dimensionamos as linhas, as cores, as formas e as silhuetas da avenida nos vídeos e fotos. Abarcamos as fronteiras dos muros, as estruturas plurais, repetíveis e labirínticas nas imagens. Em busca de frisar tais arquiteturas.

 

Em Maranhão o sol nos desperta cedo é muito quente pela manhã. E ficamos com a impressão do dia ser interminável.

 

Quando retornamos ao Centro Histórico reparamos no grande fluxo de pessoas, no movimento do “dia” na cidade, reparamos no contraste entre os dois fluxos. Aqui na Rua Grande todos seguem o caminho da lombada, descida frenética. Muitos vendedores ambulantes. Sentimos a necessidade de eternizar este contraste. As pessoas vivem em coletivo, mesmo sendo esta a zona insegura. Todos na rua.

 

É uma condição contraditória.

 

Aqui é São João. A maioria se encontrará, à noite nas praças e arraiais da cidade. Pensamos na oportunidade do Centro Histórico através desta festa de alcançar a margem de segurança de Calhau e Renascença. Há fluxo da imprensa, mídia local, portanto pensamos que haveria investimentos. Pois é um atrativo visível e significativo, mostra o quanto a cidade influencia o turismo dentro e fora do país. No entanto o investimento vai para o outro lado da ponte. Para  a revitalização da orla da Avenida Litorânea em Calhau e Ponta D’areia.

 

Estamos vagando pelas regiões. Descortinando as possibilidades estéticas. E caminhamos ao lado dos questionamentos sociais. Não conseguimos e não podemos distinguir nossas ações da nossa visão política, crítica a respeito de tudo isto.

 

 

Sexta (21h45min).

 

Acabamos de realizar a projeção.

 

Durante o dia pensamos a instalação, vagamos pelas ruas Afonso Pena e Saúde. Queríamos encontrar o ponto para a projeção. Derrepente, vivenciamos a situação de risco, ficamos cientes de que não haveria característica mais pertinente do projeto do que à margem de segurança. No momento presente damos-nos de conta que não poderíamos realizar a videoinstalação abertamente, no meio da rua. Uma decisão importante para o seguimento do processo. Víamos riscos nas possibilidades e fruímos a partir destas questões, refletimos e seguimos dispostos a completar o projeto da sacada do hotel.

Aqui os vídeos trazem um pouco deste conflito. Mas é na experiência com a oportunidade do edital - Trocas Contemporâneas Interações Artísticas, que se abriga o peso da poética. Enfim, o projeto é uma proposta para experienciar

.

Há interesse em concluir a experiência para que possamos compartilhar torná-la adepta à rede. É possível ser eficiente na ação e não ter uma experiência apenas consciente. Uma atividade pode ser automática demais para permitir uma sensação daquilo a que se refere e de para onde vai. Ela chega ao fim, mas não a um desfecho ou consumação na consciência. (Dewey, John – Arte como Experiência, 2010.)

 

Ela vai além do fim, o fim do tempo e do espaço.

 

Na cessação desta experiência, damo-nos de conta que nós retroalimentamos a margem de segurança. Atingimos um espaço que era até então de passagem (o hotel) e o transfiguramos em abrigo. 

A projeção supriu a fronteira a partir do momento que relata nosso processo, nosso olhar no  deslocamento.  Nós que fomos peças do tabuleiro seguimos adiante experienciando o espaço a partir da construção do material audiovisual. Frisamos o conceito heterotópico nas linhas, nas silhuetas, nos reflexos, nos fluxos de ambos os bairros em questão, bem como na inquietude e nos ruídos da cidade de São Luís. Uma vivência única.

 

Não esperávamos um público, afinal a experiência da fruição é a única ferramenta para o projeto ZONAS, mas havia os transeuntes. Que palpitavam, sobre o que acontecia, eram as pessoas que estavam no hotel, os moradores de rua, os lavadores de carro, no silêncio da noite em meio às luzes dos postes.

 

Sábado (08h23min).

 

29 de junho, à noite quando estávamos indo em direção ao local onde acontecia uma das comemorações da festa de São João, fomos abordados. Era um rapaz de rua a princípio penso em assalto, devido ao momento e a forma como nos abordou, ele nos segue e sem qualquer reação da nossa parte, começa a falar:

 

“Eu nasci no Patrimônio da Humanidade, onde há festa de São João e o que eu faço aqui? Me escondo!”

 

Estávamos cientes de que isto poderia ocorrer. No momento refletimos a cerca do deslocamento. E, portanto ficamos diante desta situação. Seguimos. Nada acontece. Ficamos apenas com a fala do morador do Centro Histórico. A câmera na mochila, suspensa entre o possível assalto e o desejo de registro. Mas quanto a isto ainda não estávamos prontos.

 

Aqui há todos os motivos para apreciar a história, a cultura e a arquitetura da região como um todo, mesmo a margem de insegurança provoca este estado. É um espaço duplo. Para quem vive e para quem passa.

 

Concluímos: o Centro Histórico perde um pouco todo o dia da sua história material, devido à degradação e a falta de atenção das políticas públicas. Resta-nos eternizar no registro as nuances e esquinas desta região. A nossa poética frisa a busca por imagens que elucidam as arquiteturas e acrescentamos: estados de pertencimento, de aprisionamento, de insegurança, de passagem e etc.

Pensamos a todo o momento, na hibrides de cada espaço, em seu tempo e em nossa experiência.

 

Terça-feira (22h23min).

 

2 de julho de 2013. Termino de redigir este relato e relembro:

No início, idealizávamos um projeto como um processo de intervenção de espaços e, no entanto, nós é que fomos atravessados. Nossa poética pôde fruir na perda das fronteiras, mas nós não deixamos em momento algum de acentuá-las. 

 

 

Bibliografia

 

CENSO DEMOGRÁFICO 2010.  Taxas de fecundidade e mortalidade infantil no Brasil. Disponível em <http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=2018>. Acesso em 2 de julho de 2013.

 

FOUCAULT, Michel. Outros espaços. (Conferência proferida por Michel Foucault no Cercle d'Études Architecturales, em 14 de Março de 1967. – publicado igualmente em Architecture, Movement, Continuité, 5, de 1984).

 

DEWEY, John. Arte como Experiência. Tradução Vera Ribeiro – São Paulo: Martins Fontes, 2010. – (Coleção todas as artes).

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